Uma boa casa
Talvez eu estivesse confundindo casa com fachada.
A primeira vez que li “seja uma boa casa para você”, achei que entendia exatamente o que aquilo queria dizer. Na imagem que vi ao passear pelo Pinterest, uma mulher alongava o corpo numa postura de yoga, iluminada por uma luz quente. Parecia mais uma daquelas mensagens de autocuidado tão comuns que a internet produz aos montes. Li a frase e de imediato, associei a exercícios, alimentação, descanso, saúde… O corpo era o centro da imagem e, por isso, me pareceu natural que também fosse o centro da mensagem.
Pensei na frase muitas vezes, mesmo quando a imagem já não estava mais ali. E dela, restou apenas a ideia de uma casa. Foi quando me ocorreu que talvez eu estivesse confundido casa com fachada.
A fachada importa, claro. Uma parede rachada precisa de reparo, e um telhado que deixa a chuva entrar também. Cuidar da estrutura faz parte de qualquer casa. Querer ver o espaço bonito, com cara de revista de arquitetura, não tem crime nenhum e é o desejo sincero de quase todo mundo. Só que ninguém mora do lado de fora. Cuidar da casa de verdade começa quando a gente aprende a circular pelos cômodos escuros sem tropeçar na própria mobília, a sentar na cozinha de madrugada sem pressa de ir embora de si mesma, ouvindo a casa respirar devagar enquanto o dia não vem.
É do lado de dentro que descansamos quando estamos exaustos, atravessamos períodos difíceis, recebemos quem amamos, convivemos com o silêncio e , sobretudo, deixamos de representar qualquer papel. Uma casa, antes de tudo, deveria permitir isso. Foi nesse estalo que parei de analisar a frase solta e passei a olhar para mim.
Meu corpo mudou muito nos últimos anos. Teve o peso do tempo, os anos que passaram mudando a minha estrutura de forma natural, e o sedentarismo que eu sempre carreguei adiando escolhas. Mas nada disso se compara ao impacto do tratamento oncológico. Durante a quimio e a radioterapia, emagrecer perdeu o sentido. Meu corpo precisava de energia para aguentar longas sessões, os efeitos colaterais e o que ainda viria. O objetivo era continuar viva e o resto parecia irrelevante.
Quando o tratamento terminou, imaginei que bastaria retomar a vida, voltar com as rotinas, mas, descobri da pior forma que sobreviver e voltar a se sentir em casa na própria pele são coisas completamente diferentes.
Ganhei peso, mas hoje eu vejo que essa foi apenas a parte visível da mudança. A parte mais difícil foi perceber que meu corpo tinha deixado de ser um lugar familiar. Existe uma intimidade com o próprio corpo que só nos damos conta quando perdemos. Passei a reconhecer a minha imagem, mas já nao morava nela com a mesma naturalidade.
Sou profundamente grata por estar viva. Nunca tive dificuldade de admitir isso. Também nunca consegui fingir que gosto do que vejo no espelho. Por um bom tempo achei que essas coisas eram incompatíveis, como se agradecer pela minha vida me impedisse de estranhar o lugar onde ela segue acontecendo. Acontece que as coisas não são assim. Posso sentir gratidão e continuar tentando voltar a me sentir em casa neste corpo.
Nesta altura do campeonato, não adianta ninguém me explicar como se emagrece. Eu sei. Já iniciei esse processo várias vezes. Sei o que devo comer, o que devo fazer. Sei que atividades físicas são essenciais, que preciso caminhar com mais regularidade e que dormir melhor faria diferença. Há semanas em que caminho todos os dias, uso as superbands e sigo a dieta. Em outras, eu paro. Recomeço a rotina e, algum tempo depois, volto aos velhos hábitos. Às vezes encontro uma desculpa; outras, nenhuma. Simplesmente não dou continuidade. A verdade, porém, esta nas profundezas - e ainda não a alcancei.
Faz tempo que percebi. Quando alguém sugere uma foto, eu já não sorrio. Procuro um lugar onde eu apareça menos. Um ângulo melhor. Alguém na frente. Qualquer coisa que diminua a sensação de estar sendo vista. E pensar que eu adorava me fotografar.
Essa mudança não ficou só nas fotos. As vezes conheço pessoas interessantes, gosto das conversas, imagino como seria bom continuar fora da tela, mas algo me faz recuar. Não por medo de ser rejeitada. Antes mesmo disso acontecer - e quase sempre não acontece - sou eu quem começa a imaginar tudo o que, na minha cabeça, preciso compensar. Falei um pouco disso no texto passado. Foi só juntando essas pequenas cenas que comecei a entender o que elas tinham em comum.
Até então, eu ainda estava pensando em como cuidar da casa. Só depois me perguntei como era morar dentro dela. Boa parte do desgaste não vinha apenas da mudança do corpo, mas da maneira como aprendi a falar comigo desde que ele mudou: da facilidade com que diminuo qualquer pequeno avanço; da rapidez com que transformo uma fase difícil em quem eu sou; e da severidade com que me julgo antes mesmo que qualquer outra pessoa tenha a oportunidade de fazê-lo. Preciso trabalhar isso em mim.
Acho que passei tempo demais tentando consertar a fachada sem prestar atenção ao lugar onde, de fato, minha vida acontece. E, hoje, penso que ser uma boa casa para si não é amar o espelho todos os dias ou manter uma rotina impecável. No fundo, é aprender a não transformar o único lugar onde passaremos a vida inteira no espaço mais cruel que conhecemos.
Para seguir pensando
O Que Não Faz de Você Budista, do Dzongsar Jamyang Khyentse - indicação do Yoshida.
Tem uma frase que não sai da minha cabeça: “ A maior violência que cometemos é contra nós mesmos - e a chamamos de autocrítica.” E fui reconhecendo o que tento descrever aqui.
Em paralelo, estou lendo A escrita como faca e outros textos, da Annie Ernaux.
Vi a indicação no Falastrona, da Isadora Arraes. Porque escrever sobre si é sempre um pouco isso: cortar, expor, sobreviver.
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Obrigada por dividir este tempo comigo.
Até a próxima leitura,
Denise B. Azevedo




Amei o texto!
Eu poderia colocar margaridas nesse vaso, ao invés de violetas. Eu prefiro margaridas e as violetas da loja “tem que ter, tem que ser”, que apenas me olhem de fora. Aqui dentro sou eu.
Conheço esse tal do Yoshida. É um cara muito legal. É o que dizem.