Tenho uma amiga que costuma me dizer uma coisa sempre que percebe que estou presa em alguma lembrança: “Olha para a frente!”
Ela não diz isso porque acredita que o passado deva ser esquecido. Conheço poucas pessoas que respeitam tanto a própria história quanto ela e, talvez, seja por isso que sempre me lembre de que chega um momento em que insistir em olhar para trás nos faz perder de vista os caminhos novos.
Nossas conversas quase sempre acabam nesse lugar. Falamos sobre a vida e as escolhas que fazemos. Uma ideia puxa outra e, quando nos damos conta, estamos tentando entender o que aconteceu e o que fazer com o que sobrou disso. Gosto dessas conversas porque elas nunca terminam numa conclusão definitiva. Tentamos viver o que percebemos e, claro, nem sempre as coisas funcionam. Então voltamos a conversar. É sempre uma experiência. Foi assim, nessas voltas sem fim, que minha relação com o passado começou a mudar, sem que eu conseguisse apontar um dia exato para isso.
Acho que sempre vou olhar para trás. Isso pertence a nossa trajetória. Escrevo, e quem escreve acaba convivendo com a própria memória de um jeito diferente. Alguma lembrança surge enquanto preparo um café, e esse detalhe encontra espaço anos depois de ter acontecido. Já não estranho isso. Faz parte de mim. O que mudou, no fim, não foi a memória em si, mas o apego que eu tinha a ela, a urgência de resolvê-la antes de seguir em frente.
Houve um tempo em que eu acreditava que precisava compreender tudo. Pensava que cada medo escondia uma resposta, ou que a dor desapareceria assim que eu descobrisse sua origem. Algumas perguntas continuam abertas, outras perderam a importância. A vida seguiu acontecendo e, talvez, tenha sido justamente ela quem me ensinou que nem tudo precisa de explicação… nem de pressa.
Outro dia me lembrei de uma frase do Mário Quintana: “Olhe para trás para compreender a vida. Depois, vire-se para frente para vivê-la.” Sempre gostei da frase inteira, mas foi a segunda parte que ficou, a primeira eu já sabia fazer, a segunda ainda estava aprendendo.
É muito fácil olhar para trás, basta um cheiro, uma música ou uma fotografia pra que a memória faça o resto, o que já não é o caso de olhar pra frente, que exige aceitar que o passado ofereceu tudo o que podia quando era presente. Ele segue parte de nós e merece respeito, só que deixou de ser o lugar onde eu buscava permissão para continuar vivendo.
Provavelmente seja por isso que hoje eu sinta menos saudade do que já senti. Não acho que minha história tenha perdido importância. Se alguma coisa mudou, foi o jeito como me relaciono com ela. Já não sinto necessidade de voltar às mesmas lembranças o tempo todo para confirmar quem sou. O que vivi continua fazendo parte de mim, explicando muita coisa, mas já não ocupa o centro de tudo.
Não consigo evitar de pensar nas pessoas que amo e que ainda vivem aprisionadas, sem julgamento nenhum da minha parte; cada um sabe o peso que carrega e o tempo de que precisa. Gostaria que elas experimentassem o alívio em descobrir que a vida não termina naquilo que nos aconteceu. Existe um mundo inteiro do lado de fora das nossas lembranças, e a gente esquece disso quando fica repassando a mesma cena. Minha amiga tentou me ensinar isso desde o começo, mesmo sem nunca dizer com essas palavras.
Olhar para trás continua sendo importante. É assim que compreendemos a estrada que nos trouxe até aqui, e que o percurso não é o destino. Em algum momento, quase sem perceber, erguemos os olhos, damos um passo adiante e entendemos que é preciso ir até o final.
Para seguir pensando
Estou lendo Um teto todo seu, da Virginia Woolf.
Ela fala sobre a importância de ter um espaço para escrever. Eu percebi que esse espaço não é só um lugar ou uma condição financeira. Também é conseguir soltar o que já passou. Ainda não terminei o livro, mas cada capítulo me lembra que seguir em frente começa aí.
Esta newsletter é gratuita e vai continuar sendo.
Estes links são de afiliada. Isso não muda o preço para você e ajuda a manter este espaço.
Obrigada por dividir este tempo comigo.
Até a próxima leitura,
Denise B. Azevedo


Esse teu texto (muito bem escrito, diga-se de passagem) me lembrou um trecho do livro Trilogia Suja de Havana, do Pedro Juan Gutiérrez. Ele se apega mais à nostalgia, mas da maneira dele, depois fala desta questão do "seguir em frente".
"Na época, eu era um sujeito perseguido pelas nostalgias. Sempre tinha sido, e não sabia como me livrar da saudade para viver tranquilamente.
Ainda não aprendi. E desconfio que nunca vou aprender. Mas pelo menos já sei uma coisa valiosa: é impossível me livrar das saudades porque é impossível se livrar da memória. Você não pode se livrar daquilo que amou (aqui o amor é relativo não só a uma pessoa, e sim a um tempo, um lugar, um momento).
Isso tudo vai estar sempre com a gente. Sempre vamos desejar recuperar o lado bom da vida e esquecer e destruir a memória do lado mau. Apagar as perversidades que cometemos, desfazer a lembrança das pessoas que nos magoaram, eliminar as tristezas e as épocas de infelicidade.
É totalmente humano, então, ser nostálgico, e a única solução é aprender a conviver com a saudade. Talvez, por sorte nossa, a saudade possa se transformar, de uma coisa depressiva e triste, numa pequena faísca que nos impulsione para o novo, para nos entregar a outro amor, a outra cidade, a outro tempo, que talvez seja melhor ou pior, não importa, mas será diferente. Isso é o que todos nós procuramos todo dia: não desperdiçar a vida na solidão, encontrar alguém, entregar-nos um pouco, evitar a rotina, desfrutar a nossa parte da festa."