Fora da Rota
Um conto sobre entregas, cachorros e o que a gente faz para pagar as contas
A rua não batia com o mapa. Passei devagar, em segunda marcha, ouvindo o amortecedor bater do lado esquerdo. Algumas grades tinham a tinta gasta pelo sol. Outras estavam cobertas por trepadeiras. No fim da rua, encostado num terreno baldio, havia um portão alto, de ferro, pintado de verde escuro.
Desci com a caixa debaixo do braço. Era um pacote fora da minha rota principal, erro de triagem do galpão. Dez quilômetros a mais, só para não ter que voltar à central no fim do dia e pegar fila para devolver mercadoria.
Apertei o interfone duas vezes. O botão afundou e ficou preso.
Do outro lado, um vira-lata de porte médio começou a latir. Um latido rouco, pausado.
Ninguém apareceu.
Tentei pelo aplicativo. A ligação caiu direto na caixa postal. Depois mandei uma mensagem padrão do sistema. Fiquei ali por dois minutos, ouvindo o cachorro e olhando para o asfalto quente.
Registrei a ausência com o dedo úmido na tela. Joguei a caixa no banco do passageiro e fui embora.
Voltei no meio da tarde. O sol batia de frente na rua, sem sombra nenhuma. O mesmo portão verde. O mesmo cachorro.
Dessa vez insisti por pura teimosia. Três apertos na campainha, duas ligações, mensagens pelo chat do aplicativo. Avisei que estava em frente ao endereço.
Fiquei olhando o bicho pelo vão do portão. Ele me olhava de volta, a corrente esticada, a saliva caindo na terra seca.
Pensei se era aquilo mesmo. Se era esse o nome da tal autonomia.
Meses antes, quando comecei a usar meu próprio carro, achei que faria meus horários. Agora eu estava ali, queimando gasolina no meio do nada, por causa de alguém que comprou uma coisa pela internet e nem se deu ao trabalho de deixar um aviso com o vizinho. Nem de atender a droga do telefone.
O app do banco piscou: lembrete de vencimento da fatura do cartão.
Guardei o celular no bolso.
Segunda tentativa frustrada.
Na manhã seguinte, o céu estava cinzento, cor de alumínio. Peguei a caixa do banco de trás. O papelão cheirava ao aromatizante de baunilha que eu usava no carro.
Olhei para o portão verde e decidi que seria a última vez.
Campainha.
O cachorro latiu uma vez e parou.
Cansei de tentar pela plataforma. Peguei meu próprio celular, puxei o número que estava impresso na nota fiscal e mandei uma mensagem direta pelo WhatsApp.
Bom dia. Sou a entregadora. Terceira tentativa. Tem alguém para receber?
A resposta veio em menos de dois minutos.
Oi, desculpa. Tô no trabalho. Pode jogar no quintal.
Tem um cachorro lá dentro — digitei.
Ele tá na corrente. Não chega até o portão. Pode jogar.
Olhei para a altura do portão. Depois para a caixa. Depois para a rua vazia.
Voltei ao carro.
Peguei o rolo de barbante e o guarda-chuva velho no assoalho de trás. Dei duas voltas de barbante na caixa, apertei o nó com os dentes e lacei o cabo do guarda-chuva.
O cachorro sentou na terra para olhar.
Ergui o guarda-chuva com os dois braços. Meus ombros estalaram. Na primeira tentativa, a caixa balançou e bateu na grade. Na segunda, escorou no topo do portão.
Empurrei o cabo com força até sentir o peso ceder.
Houve um baque seco de papelão no cimento, do outro lado.
Fiquei parada com o guarda-chuva vazio na mão. Minhas palmas estavam sujas de ferrugem.
O cachorro se levantou, caminhou até o limite da corrente e esticou o pescoço. O focinho dele ficou a poucos centímetros da caixa. Ele cheirou o papelão.
Peguei o celular de novo, aproximei da grade e tirei a foto de comprovação.
Enviei.
Entregue.
Depois de alguns segundos, ele respondeu:
Valeu. Você é melhor que os Correios.
Olhei para a mensagem. Depois para o cachorro, ainda parado no limite da corrente, os olhos fixos na caixa que não conseguia tocar.
Não respondi.
Joguei o celular no banco do passageiro, bati a porta e dei a partida.
O aplicativo apitou outra vez.
A próxima entrega ficava a oito minutos dali.
Este conto nasceu de entregas reais. Os nomes e endereços foram protegidos. O cachorro, por decência, também. O resto, a gente inventa para sobreviver.
Obrigada pela leitura e até a próxima!
Com afeto,
Denise B. Azevedo


